Vamos falar sobre o caso do porcos do Rodoanel?

Uma carreta cheia de porcos que seriam levados para o abate tomba na estrada e deixa centenas de porcos feridos a beira da morte. Ativistas veganos, que são as únicas pessoas no mundo que tem empatia por porcos e não falam "hue hue bacon" viram uma oportunidade de resgatá-los dentro da lei. Usamos como pretexto a lei de vigilância sanitária e muitas negociações com o dono do abatedouro para que os porcos pudessem viver em santuários. Os santuários animais já vivem em condições precárias, pois o número de doações é baixo e a demanda de animais resgatados é muito grande. Então foi criada uma vakinha, para os custos desses porcos resgatados. Em poucas horas, conseguimos a nossa meta, que nem sabíamos ao certo se seria suficiente, pois os porcos precisavam de muitos remédios, comida e água. Isso causou uma revolta tremenda nas pessoas que não eram veganas. Afinal, isso é bem óbvio, pessoas que enxergam porcos como plena mercadoria, vê pessoas doando muito dinheiro pra essa suposta insignificância, é motivo de ficar indignado.
Ou seja, resumindo: 36,1 milhão de porcos são mortos por ano, ativista conseguem salvar 100 porcos devido a um acidente inesperado, fazem uma vakinha às pressas para tentar cobrir todos os custos que surgiram e as pessoas invalidam o nosso ativismo com frases do tipo: pessoas passando fome e tem gente doando dinheiro pra porcos.
Sabe o que isso me lembra? Homofóbicos enrustidos indignados com as pessoas trocando a foto perfil por uma colorida dizendo que temos problemas maiores, como crianças morrendo de fome na África.
Eu te pergunto: O que o cu, tem a ver com as calças?
Se eu apoio o movimento LGBT eu não posso ajudar crianças da África não? Quem disse que eu não ajudo?

Páginas feministas fizeram essa montagem covarde, comparando uma vakinha para porcos com a da Gisele, como se uma causa fosse mais importante que a outra.


E aí, que entra a pergunta mais óbvia: se eu sou vegana e doo 10 reais pra vakinha desses porcos, quem disse que não doei 10 reais pra vakinha da Gisele? Quem disse que se eu não estava sabendo da vakinha da Gisele, imediatamente irei doar e divulgar?

Veganas feministas compartilharam essa montagem problematizando a diferença gigante das duas vakinhas e eu concordei com a problematização, pois não era pra enfatizar que porcos estavam ganhando mais dinheiro que uma mulher, era pra falar o seguinte:
- Quando a gente quer se unir pra ajudar em algo, nada é impossível. A vakinha dos porcos ultrapassou a meta, e depois foi colocada uma maior ainda. Não é desmerecendo a vakinha para os porcos, ou seja, TEM QUE DOAR SIM PARA OS PORCOS. Mas tem que doar também para a Gisele. E o que fica sem resposta é: que veganos são esses que doaram para os porcos? Pensa: se todos esses veganos fossem interseccionais, a vakinha da Gisele não estaria nesse nível.
Até porque, no post em que foi problematizado isso, imediatamente veganos interseccionais disseram "Eu já doei, vamos ajudar gente!" ou "Por favor, alguém me passe o link, não estava sabendo dessa vakinha".

Mas qual foi a maioria esmagadora dos comentários? Vou listar alguns:
- Eu já doo para os animais. Esses hipócritas especistas que doem para os humanos!
- Uma coisa não invalida a outra, que postagem ridícula. Até parece que mulheres não tem ajuda das outras pessoas.
- Os animais já nascem pra morrer! Só nós veganos que olhamos por eles. Pelo menos essa mulher tem pessoas para ampará-la.

VOCÊS ENLOUQUECERAM???????????

Virar vegano é passaporte pra odiar seres humanos? Pior, é passaporte pra dar as costas pra ser humano oprimido?
Mulheres tem ajuda de outras pessoas, SÉRIO ISSO? Desde quando mulheres tem visibilidade na nossa sociedade?
Os animais já nascem pra morrer. Claro. Mulheres, pretos, pobres e LGBTs também.

Algo totalmente aceitável, e que deve ser levado em consideração é: Porque a vakinha da Gisele não tinha sido divulgada? Porque a mídia não deu tanta atenção para a Gisele?
Simples: ainda que muitas mulheres tenham um privilégio sobre esses porcos, ainda são esquecidas pela sociedade.

Umas das frases que me doeu o coração foi: Porque Gisele não nasceu porco?

Eu tenho várias coisas pra dizer sobre essa frase. A primeira, é dizer que ninguém nunca na vida desejaria nascer um porco. Se Gisele fosse porco, já tinha virado feijoada.
Mas eu também me questiono que desespero é esse das mulheres para em um momento de aflição desejar ter nascido um porco, só pra ter tido a atenção que esses poucos porcos tiveram.
É você estar MUITO fudido na sua vida, pra desejar ter nascido um porco.

Nós, mulheres veganas e feministas, compreendemos a dor de todas as mulheres. Mas parece que a nossa dor, não está sendo respeitada.
Nós, não estamos nos sentindo acolhidas pelo movimento feminista em certas ocasiões. A página "Feminismo sem demagogia", chamou Luísa Mel, de "anta de tênis", VELHO QUE FEMINISMO É ESSE???
Pediu desculpas depois, beleza, mas que feminismo é esse que xingou uma mulher protetora dos animais dessa forma?
Ficaram tão indignadas de "perder pra porcos" (não encaro dessa forma, e nenhuma vegana encara dessa forma) que a agressividade tomou conta.
E o que fico mais triste, é que elas não enxergam que existem feministas veganas. Mulheres que combatem machismo dentro do veganismo. Que está a todo custo tentando fazer esse rolê ficar incluso. Porque a gente sabe que na teoria o Veganismo é lindo, mas na prática, ele é excludente. Páginas feministas zombando do nosso ativismo e depois fazendo considerações de que na realidade não estão zombando. VELHO, VOCÊS ESTÃO SIM.

O que mais me corta o coração é o seguinte fator:
Eu fico horas, dias, semanas, meses combatendo racismo, machismo dentro dos grupos veganos, entre os veganos, para que seja acolhido as minorias sociais, para que mulheres veganas que ainda não são empoderadas, se empoderem, sintam-se acolhidas pelo feminismo. Eu tento explicar pra todos os veganos que a gente precisa compreender porque certas pessoas continuam consumindo produtos de origem animal. Tento fazer elas compreenderem que É PRECISO FAZER RECORTE SOCIAL E RACIAL! É preciso compreender porque uma mulher se sente ofendida quando comparada a um animal. É reflexo de uma sociedade especista? É. Mas a gente tem que compreender. A gente tem que saber como iniciar uma conversa com essa pessoa.
Eu tomo todos os cuidados possíveis pra não machucar uma minoria. E eu tô vendo que algumas mulheres feministas que não são veganas não estão ligando pra isso, estão esquecendo que por trás do Veganismo, existem mulheres feministas veganas que as compreendem. Nós compreendemos vocês. Compreendemos vocês.

Deixo aqui o link para a vakinha da Gisele, que está quase atingindo a meta e que já ganhou as próteses de presente para quem quiser ajudar: https://www.vakinha.com.br/vaquinha/ajude-gisele-santos-vitima-de-violencia-domestica