Como é ser mulher negra e vegana




























Esse debate é necessário. Porque de tempos em tempos, temos uma nova discussão sobre racismo no movimento vegano, que muitos ativistas não admitem o seu teor totalmente opressor.

Eu, como mulher negra, tenho propriedade pra definir o que me ofende como racismo. E tenho empatia o suficiente, pra entender negros que se sentem vítimas de racismo.
Se você é branco, só escuta. Só compreenda.
Se você é negro, tenha empatia. Não é só porque não foi ofensivo pra você, que não é pra milhares de negros no mundo.

Sempre esse assunto retorna e vejo por todas as redes sociais apontamentos do porque é racismo chamar animais de "escravos", do porque é racismo comparar navios negreiros a navios com animais não humanos sendo transportados como mercadorias, do porque é racismo comparar racistas da época da escravatura com pessoas que comem carne.

E aí que entra o desgaste de ser negra e vegana. Porque eu preciso discutir com veganos que eles estão sendo racistas. E preciso convencer pessoas negras não veganas que o movimento vegano em sua base não é racista por conta de ativistas que tem estratégias péssimas e não respeitam uma acusação séria que é "migo, pare, tá sendo racista".

Sério, as vezes me pergunto qual a dificuldade no final das contas, de uma pessoa deixar o orgulho de lado e dizer: então o que você sugere? Como posso fazer isso sem ser racista?

Precisamos aceitar a realidade: negros morrem, animais não humanos morrem (assim como outros grupos de minorias oprimidas).  
Ainda que animais não humanos morram em mais quantidade atualmente, não tem nem 150 anos que temos modelos de indústrias que exploram e matam animais em massa. Não faz muito tempo que a carne era proveniente de caça, subsistência, ou pequenas fazendas (comércio pequeno). E nessa época, quem morria em massa eram negros. Foram mais de 300 anos, e contando. A escravidão acabou na teoria, e diminuiu na prática, mas não acabou. Se tivesse acabado, a cada 23 minutos um jovem negro não morreria.
Logo, concluímos que estamos todos no mesmo barco. Por isso existem os MOVIMENTOS.

Negros lutam por negros, e atuam no movimento negro.
LGBTs lutam por LGBTs, e atuam no movimento LGBT.
Mulheres lutam por mulheres, e atuam no movimento feminista.
Veganos lutam por animais não humanos, e atuam no movimento vegano.

Somos movimentos diferentes, e ambos buscando liberdade, mas ainda assim diferentes. Ambos com suas dores. E enquanto não reconhecermos as nossas diferenças e respeitar nossas dores e consequentemente nossas lutas, tudo começa a desandar.

Muitos povos foram escravizados no mundo todo, mas vou me ater ao povo negro. Pelo simples fato de que moro no Brasil, e aqui a maior escravidão foi do povo indígena e preto, e eu por ser negra, tenho mais domínio sobre o meu povo. Eu vivo o racismo nos espaços que vivo. Logo, pra mim, é muito mais coerente falar mais sobre um assunto que eu sinto na minha pele. E me resta a coerência de ter empatia por outros oprimidos que não são iguais a mim, e sofrem também com a opressão.


Quando você, ativista vegano, no auge da sua emoção diz "Os negros já foram escravizados e hoje a sociedade entende que não é ético, com os animais é a mesma coisa, não é ético mas não admitimos, seja vegano" você está sendo racista, ainda que esteja cheia de boas intenções, e eu sei que 99,9999% está com boas intenções.
Mas essa não é uma estratégia legal, não é saudável e não é ética,
Primeiro de tudo, você iguala negros (muitos que não sabem nem o que é veganismo) a senhores de escravos. Pessoas comem carne porque vivem num mundo especista, muitas delas nunca ouviram um debate sobre especismo, e você de forma desonesta iguá-las ao seu opressor. 

Especismo não é a história de um grupo que tem poder sobre o outro. Não é como se o Brasil fosse especista e o resto do mundo não. A gente tá falando do mundo inteiro concordar que especismo não é crime. E o mundo inteiro concorda que matar animais não humanos é ético. Somos educados desde pequenos nas escolas que animais não humanos nos servem, tudo isso por causa de algo muito simples: biologia.

Na biologia descobrimos que existem animais carnívoros, animais que matam outros animais e os comem pra sobreviver. E também descobrimos que seres humanos são onívoros, ou seja, tem a capacidade de digerir alimentos de origem animal e de origem vegetal. 
O que impede, a nós veganos, de comer carne animais? Usá-los de acordo com nossas necessidades naturais de sobrevivência?
Lembram daquele clássico exemplo sobre estarmos perdidos na selva? Nesse caso, seria ético matar um coelho e comer? 
Se for necessário pra minha sobrevivência, é a lei do mais forte... 
Mas o que vai me impedir de fazer isso mesmo sendo mais forte que um coelho? 
Empatia. 
A resposta é a sensibilidade de não querer tirar a vida de um animal, se podemos comer outras coisas que essa selva pode oferecer. Caso não tenha nada nessa suposta selva, nenhuma proteína de origem vegetal, ok, iríamos nos colocar a prova da sobrevivência.
Mas agora volta um estalo pra realidade. 
Estamos falando do modelo em que vivemos atualmente. 

Não vivemos livres na natureza e temos que correr atrás de nossos alimentos (por isso populações indígenas não se aplicam aos questionamentos sobre veganismo). Vivemos num sistema capitalista, de indústrias agrícolas e pecuaristas. E se podemos escolher pelos nossos alimentos, se existe uma produção em massa dele, porque escolhemos uma indústria que mata animais sencientes sem a menor necessidade? 
A nossa luta é pelo reconhecimento dos direitos desses animais, é a luta pela liberdade deles. É a luta pra não exploração de bois, vacas, porcos, galinhas, peixes..., e é possível trazer a tona questionamentos que mostrem a dor desse animais pelo o que eles sofrem por si só. 
Animais não humanos sofrem e esse argumento é suficiente pra alguém compreender que eles não deveriam ser mercadorias. Quem vê um animal sendo morto num abatedouro e diz que não liga, não vai mudar de opinião com você fazendo comparações com movimentos sociais humanos.

Negros foram e são animalizados o tempo inteiro. É um longo processo de aceitação pra não termos auto-ódio, pra você, no auge da sua desconstrução do mundo dizer que todos somos iguais? Entenda que mesmo para um negro vegano pode não ser fácil dizer que somos iguais a animais não humanos. Pois nos comparar a esses animais de forma negativa é o que racistas fazem conosco.
Não é bobeira. Muitos negros tem depressão e se mutilam por conta dessas animalizações.

Um ponto interessante também é que fazer tanta questão de nos comparar a animais, pra afirmar que somos iguais, na verdade coloca o ser humano num estado superior de alguma forma.
Alguns ativistas veganos fazem tal comparação pra tentar de algum modo sensibilizar pessoas que consomem produtos de origem animal. Esse tipo de ativismo de certa forma "desanimaliza" o animal e tentar deixá-lo próximo do ser humano. Ou seja, é preciso um animal ter sua dor comparada a de um ser humano pra que as pessoas entendam que ele também sofre? Só enxergando um boi como um negro que é possível ter empatia?

Não. Não é desse jeito que se desperta empatia e respeito.
É preciso respeitar porque é uma vida e pronto. É preciso refletir não porque é um "navio negreiro versão bichos" é preciso respeitar porque animais não humanos estão sendo transportados vivos num navio e sabemos muito bem os tratamentos que esses animais terão lá. Já não basta o que já sofrem por terra, ainda são submetidos a tal condições em alto mar.

Eu sei que o desespero é grande. A agonia é enorme. A sensação de impotência é devastadora. Mas não é utilizando de estratégias que ferem negros (ou qualquer outro grupo oprimido) que vamos resolver o problema.

Criticar uma estratégia não significa desvalorizar todo um trabalho que tá sendo feito. As críticas são para sermos seres humanos melhores. 

Eu sou negra, eu sou mulher, eu sou vegana. Eu luto pelo povo negro, eu luto pelas mulheres e luto pelos animais. Tenho empatia pelo movimento LGBT e por isso apoio a luta desse grupo.
Eu sou uma pessoa que faz de tudo, pra ter uma sociedade boa no futuro. Eu tô lutando e apoiando todos.
Se você quer ser vegano, porque cansou dos humanos e agora só quer lutar pelos bichos, tem alguma coisa errada aí. 
Imagina se um cachorro visse um outro cachorro e um humano numa mesma situação de perigo, o que será que ele faria? Tentaria salvar somente o humano? Salvaria só sua espécie? Ou tentaria salvar os dois?
E você, o que você faz?

Ruan F. chef vegano e favelado - Da favela pro mundo #1


Agora no blog vai ter um quadro bem legal sobre empreendedores e projetos sociais da favela. E pra começar com o pé direito, o Ruan cedeu um pouquinho do tempo dele pra gente.
O Ruan é meu amigo de longa data e é uma das pessoas que mais admiro nesse mundão, um chef de cozinha incrível e um ser humano maravilhoso! Nascido e criado em Realengo, ele conta um pouco das dificuldades de ser um cozinheiro gay, vegano e favelado.


Quando você se deu conta de que queria ser um cozinheiro? Você planejou isso? 
Não. Eu era publicitário. Virei cozinheiro após me tornar vegano. Algo bem comum já que ficamos mais atentos ao que comemos e passamos a cozinhar mais em casa. Mas eu decidi levar isso mais a sério do que apenas cozinhar comida caseira. 

E você trabalhava com publicidade? 
Sim! Trabalhava com o marketing de uma academia no Lins. 

E quando que você deixou seu emprego? Você lembra como foi? 
Foi em outubro de 2016. Eu tava cansado do trabalho que tinha e da profissão que tinha e resolvi que ia largar o emprego pra cozinhar. Minha gerente ficou chocada mas deu todo apoio. Peguei minha recisão de 250 reais e comecei meu próprio negócio. 

Sua mãe reagiu bem? 
Toda mãe pobre quer que seu filho tenha carteira assinada e estabilidade financeira. Largar um emprego que o salário caia todo mês certinho pra viver uma vida de incertezas de um pequeno empreendedor pobre é desesperador. 

Como foi o início da sua carreira como cozinheiro? 
Eu criei minha marca, uma página pra essa marca comecei a divulgar no grupo Comida da Gente a venda de marmitas veganas congeladas. Eu só não esperava que no primeiro dia eu já tivesse tanta gente querendo. Daí eu fiz a primeira grana pra continuar a tornar a empresa cada dia melhor. E comecei a pesquisar cada vez mais e mais técnicas e pratos pra inserir nos menus. 
Chef Ruan em feira no Refeittorio Gastromotiva

E como surgiu a oportunidade de estudar gastronomia? 
Eu tava incomodado com a falta de técnica e informalidade na profissão e resolvi que ia caçar algum curso pra me dar uma base. Cheguei a ver inclusive o curso da Gastromotiva mas as vagas já estavam fechadas. Daí apareceu um anúncio patrocinado pra mim de uma ONG que auxiliava o empoderamento e a inclusão socioeconômica de LGBT. E nesse anúncio eles estavam selecionando jovens LGBTs para poder fazer o curso da Gastromotiva. Eu entrei em contato com eles, agendei uma entrevista, passei e entrei na Gastromotiva 

Era longe? Conta um pouquinho desse trajeto.
Longe não era né. Daqui de casa era só pegar o trem, fazer baldeação no Maracanã e descer em Bonsucesso. O problema era que eu nunca tava em casa né. Com o início dos negócios da Mr. Carrot eu vivia na zona sul entregando as marmitas. Então quando o curso começou foi tenso administrar minha nova rotina. Então o trajeto era pegar o trem bem cedo e com muito peso pra zona sul, entregar as marmitas por lá, ir para o lugar mais próximo onde tivesse trem/ônibus pra Bonsucesso e ir pro curso. Do curso voltar pra casa pra cozinhar mais pro dia seguinte repetir a rotina. Eu não tive vida durante todo o curso. 

Como foi lá no curso? Conta mais pra gente dessa experiência! 
Eu confesso que no meio do curso eu chorava com meu namorado sobre o fato de ter que manipular carnes e etc. Mas a equipe do curso era fantástica. Os professores eram super compreensíveis, me diziam alternativas veganas às receitas que estávamos preparando e tudo mais. Minha bancada também me ajudou muito me colocando pra lavar louça em dia de manipulação de carnes. Logicamente não fiquei de fora de tudo, afinal, estava lá pra aprender. Acho que se quisermos sair dessa marginalidade de informalidade da culinária vegana precisamos passar por cima de determinadas situações pra só assim criarmos o mundo que queremos criar. E gastronomia tradicional tem muito a nos oferece de base. 

Então você acha que de algum modo enfrentar esse desafio de manipular ingredientes de origem animal te ajudou a crescer como culinarista vegano? 
Sem dúvida. E esse desafio não acabou só porque concluí o curso. Eu ainda tenho muito a aprender e muito a ver sobre culinária tradicional pra assim poder usar como base pra construção da culinária vegana. 

Enquanto LGBT, você sente que as pessoas te respeitam mais por ter uma formação? 
Claro. Eu acho que até falo sobre isso no livro que a Microrainbow lançou sobre empreendedorismo LGBT. A gente como minoria no geral precisa se esforçar muito mais para conseguir o mínimo de prestígio dentro de nossa comunidade. "Ah, é preto mas pelo menos tem mestrado." - "Ah, é viado mas pelo menos é formado e tem a própria empresa." É como se a gente precisasse de algo equilibrando nossa "desvantagem", sabe? Pra só assim estar a pé de igualdade. 

É o nosso vale né? O nosso paraíso. Tá na moda ser preto desde que você não seja preto. É legal fazer parte do vale dos homossexuais desde que você possa sair dele pra não sofrer homofobia. Como você lida com movimentos sociais e veganismo? 
É comum que a gente veja algumas alfinetadas de outros movimentos (muitas delas com razão) ao movimento vegano. Eu fico feliz de saber que faço parte de um veganismo interseccional, que defende animais mas não fecha os olhos para a exploração humana. Amar vacas e pouco se importar com os corpos negros da favela não fazem meu tipo. Veganismo é a libertação de todos nós como mulheres, negros, lésbicas, gays, bis, trans... 

Você acha que assina seus pratos com o contexto social que faz parte de você? O fato de ser favelado e gay influencia na sua identidade na culinária? 
Não existe nada que eu me recorde de imediato de contexto gay em meus pratos, mas favelado eu tenho absoluta certeza. Mesmo com novas referências e novas técnicas é praticamente impossível eu ignorar o fato de que eu ainda sou um cozinheiro vegano que veio da favela. Logo, trago pra dentro da cozinha uma perspectiva de favela, mesmo que vegana. Dobradinha, feijoada, churrasquinho com farofa? Não existem motivos pra que esses pratos não sejam minha base na inspiração e construção de novos pratos. 
Feijoada exclusiva do chef Ruan que era servido na Mr. Carrot

Você pretende abrir um restaurante um dia? 
Se tudo correr conforme meus planos sim, eu pretendo abrir um restaurante. Mas diferente do que eu pensava há 2 anos atrás não vai ser agora. Foi inclusive uma das decisões que me levou a fechar a Mr. Carrot. Eu tenho 25 anos. Se existe algum momento pra desbravar o mundo, conhecer chefs e sugar todo conhecimento deles, aprender novas técnicas, ter novas inspirações, esse momento é agora. Então eu estou ciente de que, a não ser que a vida dê uma reviravolta imensa, eu só abro um restaurante depois de ter sambado meio mundo. 

E esse restaurante, vai vender pratos de alta gastronomia ou vai ser um self-service no centro da cidade? Como você lida com os comentários das pessoas que associam pratos de alta gastronomia a culinária cara? É possível fazer pratos exclusivos, que propõe experiências gastronômicas sem necessariamente ser pra pessoas da classe alta? 
Eu não posso te dar 100% de certeza sobre como vai ser meu restaurante no futuro. Porque eu sou aquele velho clichê da metamorfose ambulante. Mas hoje eu te digo que meu restaurante estaria ali para que as pessoas pudessem desfrutar de experiências gastronômicas incríveis dentro da culinária vegana. Não vejo como um menu degustação, mas também não enxergo como um self-service no centro da cidade. Eu quero um local onde se sirva boa comida. É mais do que possível propôr experiências gastronômicas acessíveis. Pra isso basta querer. É logico que dentro desse valor, o cliente enxerga apenas o valor dos insumos, e esquece dos anos de investimento na profissão, o aluguel do espaço, dos funcionários e de tantas outras coisas que um pequeno empreendedor brasileiro passa. Mas sabendo equilibrar, é possível sim trazer boas experiências gastronômicas para pessoas fora da classe alta.

Achar que um prato que levou anos pra ser pensado, é caro, ou é baboseira, em partes, você acredita que é devido ao fato de não levarem a profissão de cozinheiro a sério? 
Com certeza. Acho que escolhemos uma das profissões mais ingratas para se ter sendo veganos rs Todo vegano cozinha, e por isso alguns tem tendência a achar que nossos pratos são reproduzíveis em casa. "Pra que eu vou pagar x nesse prato se eu posso fazer igual em casa". - Bom, eu não posso pagar por tudo que quero, mas com certeza não menosprezo o trabalho de ninguém por isso. Uma amiga uma vez me falou que o marido dela disse que quando ele acerta o sal numa comida em 3 segundos, ele não demora apenas 3 segundos. Ele demora 40 anos + 3 segundos. Todo prato que um chef coloca a sua frente possui uma história. Possui aprendizados e técnicas de anos colocados em prática para que você tenha a melhor experiência possível. E pra isso, existe um preço a se pagar.
Paella de legumes com shitake do chef Ruan 

Como conciliar ativismo e trabalho? Afinal, você ganha dinheiro com a comida, e muitas pessoas podem exigir que você ceda sua sabedoria em nome do ativismo 
Apesar de exercer meu ativismo de outras maneiras dentro do veganismo, no que tange a gastronomia vegana meu ativismo não se baseia em caridade. Ele se baseia no simples, porém não insignificante fato de eu ser um cozinheiro vegano no meio da gastronomia tradicional. É assim que eu desempenho meu ativismo. Mostrando pra outras pessoas (clientes ou até mesmo outros cozinheiros) que é possível cozinhar sem exploração animal. A profissão de cozinheiro precisa continuar existindo como qualquer outra. O que não me impede de passar algumas receitas vez ou outra. Mas já existe tanta gente empenhada nessa parte, por que exigir de todos os cozinheiros o mesmo? Por que não apenas admirar, incentivar e financiar que esses cozinheiros continuem desempenhando suas funções?

E você tem planos pra 2018?
Basicamente falando envolve a busca por mais conhecimento e envolve maior atuação minha dentro da culinária vegana, seja ministrando workshops ou trabalhando com consultoria e personal chef.


Como é se manter como chef vegano? Como você lida com isso diariamente? É um desafio cozinhar? É um desafio cozinhar comida vegana?
Sempre foi muito difícil pra mim, olhar todos os livros de culinária vegana que estudo e perceber que nenhum daqueles chefs e autores estavam minimamente próximos da minha realidade. Tanto nas receitas que nunca tinha visto na vida, com ingredientes que nunca tinha ouvido falar e que custavam o preço de um dos meus rins, quanto em suas histórias de vida e experiências. Sempre foi difícil pra mim ver que a história dos três maiores restaurantes vegetais do Rio de Janeiro contam o oposto da história que um dia eu poderei contar. Existe espaço para um jovem de 25 anos, periférico, favelado, cozinheiro e vegano contar sua própria história? Existe espaço para se discutir temas da gastronomia vegetal por uma das pessoas que também é responsável pela difusão da mesma, a partir dos olhos desta pessoa? Minha cozinha nem sempre irá trazer pratos que pessoas populares nunca ouviram falar, apesar das técnicas muitas vezes ela vai ser clichê. Vai ter bobó na moranga, macarronese na praia, feijoada na lage. Eu quero trazer veganismo pra dentro da realidade das pessoas que por um acaso é minha realidade. Não existe possibilidade de termos veganismo popular enquanto o mesmo estiver concentrado nas mãos de poucos.
Existe veganismo e existe culinária vindo do subúrbio e das favelas. E eu tô aqui, junto com muitos amigos pra mostrar que agora é nossa hora.


Pra quem for LGBT e quer ter uma chance de começar o seu negócio, a Microrainbow tá com vagas abertas pro curso de empreendorismo LGBT, dá uma olhada aqui pra se informar melhor!


Essa delícia de entrevista termina por aqui gente, fiquem com essa foto linda da gente mega cansado , porém com um sorriso enorme depois de cozinhar muito!


Instagram: @r.felixschneider
Facebook: facebook.com/r.felixschneider
E-mail: r.felixschneider@gmail.com

O Movimento Afro Vegano não existe a toa


Sempre em palestras, eu divulgo o trabalho do Movimento Afro Vegano, que pra quem não conhece é um movimento de pessoas pretas, que eu instiguei uns amigos um belo dia a criarmos.
Tudo começou por conta de uma situação racista, em uma loja vegana em São Paulo.

O veganismo se dividiu com esse caso. Muitas pessoas acharam exagerado o relato do rapaz negro, porque afinal "conheciam o dono" e veja bem, se o branco é seu amigo e ainda por cima é vegano, é impossível aceitar que ele tenha alguma atitude racista ainda que não perceba, né? É mais fácil dizer pro negro que ele está exagerando e alterando os fatos (é impressionante como a nossa sociedade tem dificuldades de acreditar numa vítima), do que pedir desculpas e tentar compreender porque tal atitude fez com que o cliente tenha se sentido discriminado. 
Por outro lado, muitas pessoas negras (todas do grupo Negras e Negros Vegans grupo exclusivo pra pessoas pretas) e muitas pessoas não negras com um mínimo de empatia, ficaram indignadas com esse ato racista.
E foi graças a esse estopim, que a gente se sentiu motivado a criar um movimento sólido.

Os espaços veganos, em sua grande maioria, sempre foram excludentes para pessoas pessoas negras, mas me diga, qual espaço não é? Até em África nós sofremos racismo.
A gente convive diariamente com problemas raciais, a gente lida e luta com problemas raciais dentro de outros movimentos. Com o veganismo, não foi diferente. Já tem um bom tempo, que negros veganos tem sido a pedra no sapato dos white vegan.

Antes tava fácil pros veganos classe média destilar todo o seu repúdio à religiões de matriz africana, com a premissa de que são religiões "atrasadas" e que por praticarem sacrifícios animais, devem ser proibidas ou até mesmo extintas.
É óbvio que se você é vegano, você não acha correto matar animais pra nenhum fim que seja, e isso me inclui, porque eu sou questionada o tempo inteiro se sou realmente vegana. Olha, por incrível que pareça eu sou vegana, eu tô lutando do jeito que eu posso por todos, e você? Tá combatendo especismo com racismo?  
Deveria pensar dez vezes, antes de assinar embaixo de uma lei racista, criada pela bancada evangélica que promete proibir sacrifícios religiosos (quantos interesses envolvidos, né não?).

Aí vão me dizer: Mas é uma conquista de cada vez. O mundo não é vegano, como vou conseguir conquistas na política, mesmo que no seu propósito não pensem nos animais e sim tem outros ideais?

A resposta é simples: é uma estratégia péssima.

Proibir sacrifícios de animais, que estrategicamente só vai atingir religiões de matriz africana, vai marginalizar essas práticas. Ou seja, se criminalizar o ato, praticantes da religião serão criminosos se continuarem fazendo, e eles vão continuar fazendo, porque é uma crença. Parecida com a de comer peixe na sexta-feira santa, só que a diferença é que o povo preto põe a mão na massa pelo o que acredita em sua religião.
E tem mais um dado, que muita gente não sabe. Mas a lei não quer só proibir, tem também uma proposta paralela de "regulamentar" tais atos. Ou seja, fazer uma espécie de sacrifício humanitário (sim, igual o nosso amado abate humanitário). Sabe o que vai acontecer se as casas de religiões afro usarem desse método pra "amenizar" a dor do animal? Vai ser IMPOSSÍVEL um diálogo com os praticantes da religião, porque eles estarão convictos de que o animal não sofre, então sua prática não é passível de questionamentos.

Você vê o quão horrível é a estratégia de achar que proibir é o caminho?

Imagina a seguinte situação:
Você se torna vegano, e conta pros seus pais que agora é ativista dos direitos animais. Você quer que os seus pais enxerguem o mundo como você enxerga. Mas como?
A sua atitude diante deste grande desafio é muito simples. Você faz cartazes escrevendo "assassinos" e começa a gritar palavras de ordem na cozinha, enquanto a sua mãe faz a janta. Depois, você queima todas as jaquetas de couro do seu pai, junto com as maquiagens testadas em animais da sua mãe.
Não satisfeito, porque eles ainda consomem produtos de origem animal, você vê se é possível legalmente proibir os seus pais de comerem animais.  

Imaginou a situação? Ok. A pergunta que eu quero fazer, não é se você faria isso, mas se você faz isso.
Você quer que seus pais morram? Você alguma vez já disse pros seus pais: se quer comer, então come o próprio braço, seus assassinos malditos!!!

Se você, durante o seu ativismo nunca atacou pessoas próximas a você, e acredita que pra elas serem veganas, não é através da proibição dos atos e sim da distribuição de material sobre os direitos animais (fornecidos por você mesmo) para que cada um possa fazer sua própria reflexão, por que diabos você se sente no direito de atacar e proibir uma mãe de santo de usar animais, como a tua família inteira usa? 
A sociedade inteira usa animais pro que bem entendem. Criminalizar esses sacrifícios só vai reforçar o racismo e os animais vão morrer do mesmo jeito, só que de forma ilegal.
Muita gente acha que se tiver a chance de proibir esses sacrifícios, vai estar salvando pelo menos algumas vidas. Não estaremos salvando vidas, não sejam tão inocentes. Os animais serão comprados para outros fins do mesmo jeito, abate de animais não é crime, entendam. Posso comprar uma galinha no mercadão de madureira. VOCÊS TEM NOÇÃO DESSA MERDA? O comércio não vai cair, não vai nem fazer cócegas, essas lojas não são financiadas por religiões de matriz africana. Vocês não estudam nada mesmo quando o assunto é racismo, devem achar que a mãe de santo todo dia compra um bode novo, NÃO GENTE, SÓ PARA!!!
Compactuar com uma lei racista dessa não é a mesma coisa que assinar uma petição a favor do fim de testes em animais. Não é uma coisa que vai ser geral pra todos, a lei vai ser seletiva. Você está sendo seletivo, tá criminalizando as religiões por um ato que você suporta em casa na mesa de jantar toda noite.

Pessoas praticantes de religiões de matriz africana podem através de material sobre direitos animais questionar seus hábitos alimentares e culturais, e essas pessoas que vão propor a diferença dentro dos espaços que elas convivem. Se nós, que somos a voz dos animais, o único movimento social onde a vítima não pode falar por si mesma (o que torna tudo mais difícil), agirmos estrategicamente e tentarmos um diálogo, a mudança será mais eficaz. Infelizmente veganismo é o único movimento  social onde as coisas não vão se resolver numa revolução (tiro, porrada e bomba). Não é um grupo social sobre o outro, é a porra do mundo inteiro especista contra nós. O mundo inteiro concorda em explorar animais pra fins que consideram justificáveis. 
Mas nós vamos apontar racismo sim, se o for, e isso não vai nos impedir de fazer ativismo, isso não vai nos impedir de conversar de pessoa pra pessoa.


Antes tava fácil pros veganos classe média, mas agora os negros estão incomodando, agora a gente problematiza evento que só acontece na zona sul, a gente reclama que não vê outros pretos nos mesmos ambientes, agora a gente não se cala.

E é aí que entra a importância do Movimento Afro Vegano. Ele existe, porque precisamos mostrar pro movimento vegano, que somos pessoas negras organizadas dentro desse rolê. E precisamos mostrar pro movimento negro, que somos pessoas negras veganas organizadas dentro desses espaços também.

É uma via de mão dupla. O movimento afro veganos se tornou necessário, para que pudéssemos ampliar e legitimar a nossa voz.
Porque o que vejo de pessoas negras não veganas simplesmente apagando a nossa luta aqui dentro do veganismo, não é brincadeira não.
Dizendo que veganismo é movimento de branco, logo negros não podem fazer parte dele e nós somos marionetes dos brancos...

Parece o mesmo papo de que feminismo é coisa de branco, logo não existe feminismo negro. Valeu fera, inviabiliza mesma as negras feministas acadêmicas que dão materiais maravigold pra gente.
Bell Hooks,  Audre Lorde, Patrícia Hill Collins, Lélia Gonzales, Sueli Carneiro, Chimamanda, aliás, Angela Davis que é feminista negra e vegana mandou um ABRAÇÃO!

Só quero dizer, que ainda estamos num enorme processo de construção. Precisamos terminar nossos manifestos, nossos materiais didáticos e bases informativas sobre o que é a MAV, e o que ela precisa se tornar. Mas enquanto isso ainda não está pronto, é importante ressaltar que não estamos de bobeira.
A gente tá resistindo e o Movimento Afro Vegano tá crescendo.

A mulher negra que vos fala

Ilustração de Janis Souza

A cada dia que passa, é colocado à prova a minha resistência como mulher negra. E isso em todos os sentidos. 
Em todos os sentidos possíveis.

Eu tô cansada de o tempo inteiro ter que explicar pras pessoas porque eu luto, ou pelo o que eu luto. E o mais desgastante é ter que explicar isso pras pessoas que se dizem politizadas. 
Eu tô cansada de ter que explicar pro branco metido a descontruidão que ele me oprime.
Eu tô cansada de ter que explicar pra branca sinhá feministona da porra que ela me oprime.
Eu tô cansada de ter que explicar pros caras negros que mesmo eles morrendo a cada 23 minutos eu sou espancada pelos mesmos a cada 11.
Eu tô cansada.

Confesso que de homem branco cis hétero, já espero o pior. Não me surpreendo se ele é racista ou machista comigo. Não dá pra esperar muito, acabo sempre me decepcionando, por isso evito me relacionar, ainda que tenham barba e digam "gratidão".

A mulher branca entra na minha vida de várias formas.
O feminismo é uma delas. Nos diferenciamos pela raça, mas temos em comum o gênero.
Mesmo eu lutando pelas mulheres negras primeiro sempre (por questão de urgência, não preferência[ou talvez preferência mesmo, qual o problema em escurecer nossas relações, né?]), ainda sim, a minha luta inclui as mulheres brancas, porque são mulheres e isso implica diversas desvantagens sociais.
O problema é que estou cansada de feministas brancas não vendo a urgência de lutar por negras periféricas. De saber de cor e salteado as estatísticas de violência contra a mulher na hora de escrever no cartaz da passeata em Copacabana, mas omitir a informação que a maioria das mulheres que sofrem essa violência são mulheres negras faveladas.
Eu tô cansada de feministas brancas sendo transfóbicas, sendo que a maioria das mulheres trans são negras, e a porra dessa luta é minha também.

A mulher branca entra na minha vida de várias formas.
Como por exemplo, ter um núcleo familiar onde a pessoa que eu mais amo no mundo é branca: minha mãe.
Eu cresci e convivi numa família mestiça, e isso tornou a minha vivência como mulher negra muito diferente.
Fui criada pra amar todos por igual, porque "todos somos iguais", mas não fui criada pra entender a verdadeira importância do meu papel na sociedade. Não fui criada pra encarar os problemas que enfrento hoje, pra lutar contra as dores que simplesmente caíram no meu colo.
Não fui criada pra aprender os problemas sobre a negritude. Mas cresci vendo de camarote o que era um relacionamento abusivo. Dos mais leves, confesso. Problemas que podiam ter sido resolvidos, e talvez tenham se resolvido. Mas a submissão da minha mãe naquele relacionamento ainda que ela fosse branca me faz entender com mais facilidade o porque eu tenho preferências, mas não excluo da minha luta de gênero as brancas. E me faz entender porque o homem negro não se exclui do machismo.
Claro, tô falando de um homem negro não politizado. Meu pai com 40 anos de idade chegou pra mim e disse: eu nunca sofri racismo.
Eu fiquei sem reação ao ouvir isso. Meu pai, homem negro de pele escura, o que vivia ouvindo piada no quartel de que no escuro não dava pra vê-lo, disse: "eu que sou eu, nunca sofri racismo. Por que você tá levantando essa bandeira de racismo?"

Sabe quando caiu a ficha de que eu era negra? Quando meu cabelo começou a cair por conta da química. Eu percebi o quanto perdi minha infância num processo de embelezamento padrão europeu ou o que é aceitável no mínimo pela sociedade brasileira. Escova desde nova, relaxamento, progressiva, permanente afro, implante... tudo só pra ficar bonita, e com um cabelo domado.
Aos 19 anos eu decidi não fazer mais nenhuma química, estava com o cabelo curtinho, mas era o meu cabelo que ali crescia, minha mãe perguntou: 
- Você não vai fazer nada??? Nem quer ir no Beleza Natural???
Eu posso lembrar exatamente de como ela arregalou os olhos naquele dia. Era um olhar assustado de "Mas filha, não vamos fazer seu cabelo? Você não vai se cuidar mais?" 
E o meu olhar cheio d'água respondia "Porque eu preciso fazer algo? O que tem de errado com o meu natural?"
Nesse momento eu entendi que era negra.

E por me enxergar negra, sinto a necessidade de relações afrocentradas, porque sinto a necessidade de estar perto de pessoas que compartilham as mesmas dores que as minhas.

O problema é que ainda dentro desse universo, eu tenho que lutar.

Eu tenho que lutar porque o movimento negro é sobre o homem negro, as mulheres negras são apagadas da história, e ai de mim se reclamar! Sou só uma feminista doida.

O problema é que ainda dentro desse universo, eu tenho que lutar.

Porque mesmo enxergando uma ligação muito mais forte e possível com o homem negro, ainda assim eles me ferem. Ainda assim eles preferem o "brother". Ainda assim eles cobram minha empatia, e não parecem preocupados em fazer todos os homens negros respeitarem as mulheres negras. Só querem a nossa empatia pro seu machismo e sua LGBTfobia.

O problema é que ainda dentro desse universo, eu tenho que lutar.

Porque tem homens negros que querem me ensinar como eu devo agir, que querem me ensinar que eu devo resgatar a ideia de Afrika. Como se Afrika fosse perfeita e o único problema no mundo (causador de todos os problemas) fosse racial. Sendo que em 2014, 650 mil mulheres foram estupradas na África do Sul e a mulher negra é silenciada hoje por homens que se dizem politizados. Esses números só aumentam e tem homem negros que nunca fizeram e não fazem nada pra mudar isso. Querem que eu seja a boa negra que cuida dos afazeres de casa, querem que eu tenha a condição de subalternidade ou submissão, ao entender que o que os olhos eurocêntricos veem como submissão na verdade é o local de poder da mulher negra na sociedade africana, em que servir comida aos homem, filhas/os e convidadas/os é um gesto de poder. Isso não me contempla.

O problema é que ainda dentro desse universo, eu tenho que lutar.

Porque ainda assim tem preta contra preta. Tem preta que briga comigo pra ficar do lado de branca, tem preta que briga comigo pra ficar do lado de homem negro.
Tem preta que quer me ensinar como lutar, "coitada, ingênua, ela tem auto ódio, é feminista, é movimento europeu, eu prefiro ficar do lado de caras negros, do que ficar do teu lado mana."

Eu só quero ser livre.

Paro de lutar. 

Sou ferida.

Volto a lutar.

Pelo o quê?
Por mim.
E por mais quem?
Pelas mulheres negras.
Aquelas que estão do lado de homens que abusam psicologicamente de você?
É.
Aquelas que estão do lado de homens que dizem que você é rainha, mas ficam com brancas?
É.
Aquelas que estão do lado de homens que querem que a gente entenda o problema deles, sendo que eles não estão preocupados em resolver a exploração contra a mulher negra mesmo depois de 150 mil anos?
É.
Então você não vai parar de lutar?
Não. Nem pelas mulheres negras que me desprezam, nem pelos homens negros que me oprimem, porque eu acredito em algo. Eu acredito e busco uma relação com o homem negro, eu tenho esperança. Assim como tenho esperança com as mulheres brancas que fazem parte da minha vida.

"MULHER PRETA, ESCOLHA SEU LADO. Lutar contra o racismo ou contra misoginia? Lutar pela liberdade "povo preto" ou por "todas as mulheres"? Servir ao homem negro ou às mulheres brancas? Escolha o menos pior.
Estamos sempre em posição servil nos 2 casos. Porque só é interessante a nossa contribuição desde que seja servindo. Estamos sempre sendo coniventes com o chicote das brancas ou com o murro dos pretos. Não há liberdade em lutar pelo seu opressor" - Página Negralistas


Bem vinda a solidão da mulher negra.

Palestra 'Veganismo nas Periferias' na XII Semana Vegetariana da Unicamp

É com uma enorme gratidão que eu começo escrevendo essa postagem. 
Queria agradecer demais aos organizadores do COLVE - Coletivo Libertário Vegetariano, por ter disponibilizado a minha ida à Campinas, pra dar a Palestra "Veganismo nas Periferias" nessa quarta-feira, dia 04, nessa semana de debate.
Pra quem não conhece o COLVE é um coletivo independente que promove ações em prol da libertação animal. A principal delas é a Semana Vegetariana da Unicamp, um evento anual que tem como objetivo proporcionar informação e aprendizado sobre temas relativos ao veganismo, uma ideologia ética que visa diminuir ao máximo as práticas de exploração de animais humanos e não humanos.

Eu cheguei lá por volta de 09h e antes de ir pra UNICAMP, nós fomos tomar café, e depois almoçar. Eu adorei conhecer um tico da cidade, fiquei apaixonada por dois espaços que fui.
Nossa primeira parada foi no Expresso Vegano, tomei um capuccino maravilhoso, com direito a chantilly por cima!!!!
E pra comer pedi um pastel de calabresa com queijo e cebola. A massa era uma delícia e isso me surpreendeu, porque geralmente as massas de pastel tendem a ser meio amargas no final, e essa tinha um sabor do início ao fim! E o recheio incrível também. A tempos não comia um lanche gostoso assim, de dar prazer de comer sabe?


Aqui no Rio não tem um lugar legal assim pra tomar um café da manhã. Tem alguns lugares no centro que abrem de manhã e que tem a parte da lanchonete, mas esse é outro conceito, é outro clima, tem clima de cafeteria, é aconchegante, foi realmente muito legal a experiência.

Eu estava já vendo com uma amiga a possibilidade de fazermos um bistrô em algum lugar, e a proposta seria servir café da manhã e depois um pequeno almoço, mas ainda estamos na parte de projetos haha



Depois almocei no Vegetalle, comida caseira, natural e deliciosa! Adorei, de verdade, o espaço também era muito aconchegante! Como tinha reforçado o café, eu comi relativamente pouco.

Experimentei dois tipos de arroz, grão de bico com mostarda (que tava incrível), homus, farofa de banana ai tava tudo parecendo que foi feito com muito amor sabe? Os funcionários eram mega atenciosos. Eu não sei se era impressão de turista, mas eu me senti muito bem recebida, e pensei que deveria ser maravilhoso morar ali e ter aquele tratamento sempre!
Essa é a Gisele, uma das integrantes do Coletivo, que é um amor de pessoa!
A palestra foi incrível, eu falei sobre pontos muito interessantes, e depois rendeu numa roda de conversa bem proveitosa.
- Falei sobre a crianção do Veganismo
- Sobre o esforço de fazer as atitudes que estão ao nosso alcance pra ser vegano
- Sobre negros e pobres veganos
- Sobre como nós, podemos ter voz dentro do movimento
- Como pessoas privilegiadas podem atuar dentro e fora do movimento, pra fazer com que o número de veganos pobres sejam cada vez maiores
- Sobre o respeito e entendimento do limite de cada um

Como eu disse, foi uma conversa muito proveitosa e emocionante, todos ali estavam dispostos a escutar e a desabafar situações que aconteciam com eles mesmos. Foi realmente muito rico participar disso.
Algumas pessoas já tinham ido embora, mas alguns sairam na foto comendo esfiha que foi servido no Cooffe-break
Pra completar encontrei dois amigos maravilhosos, Bil e Priscila! O Bil tá comigo desde o inicio da criação da MAV, e a Pri é a companheira dele, que conheci depois e ficamos amigas.

Beijão a todos! Acompanhem o blog, vou falar sobre substituições de laticínios por outros alimentos!

Thallita Flor
@thallitaxavier 

Inauguração da biblioteca popular 'Eu só quero é ser feliz' na CDD

E aí gente bonita!
Ontem eu tive a honra de participar da inauguração da biblioteca popular "Eu só quero é ser feliz" no CSU - Centro Social Urbano, na Cidade de Deus. O evento de inauguração que contava com várias atrações foi organizado pela galera do Cine & Rock na Praça e o Mc Doca e Cidinho, que tem o projeto "Eu só quero é ser feliz" pra ajudar crianças da comunidade!
Os voluntários e parceiros do projeto levantaram a biblioteca em 1 mês e pretendem ainda fazer muitas melhorias pra criançada ter acesso a cultura de qualidade!


Elas estavam muuuito animadas com o evento! Tinha muita brincadeira, música, filmes e claro, livros!!! Dando uma olhadinha lá na biblioteca, encontrei uns livros que tinham ilustrações lindas de protagonismo negro periférico! Simplesmente me emocionei, por lembrar que na minha época de escola não via esses livrinhos pra me sentir representada.



Bati um papo com o Doca, que é super gente boa! Eu fiquei simplesmente fascinada com ele na minha frente. O cara que fez parte da minha infância tava alí, conversando comigo <3

Eu procurei e não achei nenhum livro que falasse sobre direitos animais, vocês conhecem algum livro ilustrado pra criança que aborde esse tema sobre respeito aos bichanos? Seria massa se conseguíssemos colocar uns exemplares sobre esse assunto lá!

Foto de Mc Doca 

Foto de Mc Doca

E vocês conhecem o projeto "Eu só quero é ser feliz"? Se não, convido vocês a conhecerem! Tá precisando de voluntários, o Mc Doca contou sobre muitas dificuldades que tem pra poder tocar esse projeto e o quanto qualquer ajuda de coração é bem vinda!
Quem quiser ajudar, só entrar em contato, por wpp ou telefonar: 998640263


Enfim, tava lindo, tinha até pipoca de graça lá no evento, não preciso dizer que me esbaldei né? Porque de graça eu tomo até injeção!
Esse post foi só um pequeno resumo do que rolou lá, agora fiquem com esses pézinhos de quem brincou muito e que deixa qualquer mãezinha doida <3



Como é ser vegana e favelada

Hoje eu vim falar de um assunto que queria falar a muito tempo. Sempre falo sobre esse assunto, mas eu sinto que na maioria das vezes nunca digo tudo o que eu queria dizer.
Parece que a discussão fica incompleta, que faltou algo.

Afinal, como é ser vegana, e ser favelada? Como é ser vegano pobre? É possível? É difícil? As pessoas sempre perguntam.

Primeiro gostaria de diferenciar dois termos muito usados nessas discussões "elitista" e "caro".
Elas não possuem o mesmo significado. 
Quando eu digo que o veganismo é elitista, é uma verdade. Quando digo que o veganismo é caro, é uma mentira.
Vamos ver isso melhor...
Ser vegano tá longe de ser caro. Veganismo é uma ideologia ética e política na qual você faz o teu possível pra não causar nenhuma crueldade aos animais. Então nós veganos não comemos animais, não vestimos animais, não usamos produtos testados em animais, e por aí vai.
Mas desde quando vegetais são caros?  Até onde eu sei, o kg da batata é bem mais barato que o kg da carne. Então nas compras do mês quem é vegetariano faz economia. Pra vestir, até onde sei, jaqueta de couro animal é mais caro que couro sintético, então outra coisa que não é nenhum problema, certo? A parte que pode ficar mais complicada, é a de produtos de limpeza. Aqui na favela onde eu moro, por exemplo, a marca mais conhecida que não testa e que tem diversos produtos sem ingredientes de origem animal, é a Ypê. A Ypê aqui é caro. Eu não compro Ypê quando tô com pouco grana. Eu compro o sabão mais barato, limpo a bunda com o papel higiênico mais barato e escovo os dentes com a pasta de dente mais barata. Esse é o meu limite. Eu faço o meu possível pra causar o menor impacto possível aos animais. Infelizmente, não tenho condições de comprar produtos mais caros. A questão é que eu não sou menos vegana por causa disso. A minha luta, não vai deixar de acontecer, por eu não conseguir abraçar o mundo. Sou pobre, sou vegana e faço tudo que está ao meu alcance.
Então não, ser vegano não é caro.
Mas porque o veganismo é elitista?
É elitista porque o acesso a informação sobre diversas coisas do mundo vegano não chega na periferia. É elitista porque mesmo não sendo caro o custo da comida, os lugares cobram caro por ela. Porque é criado um conceito que vegetariano é coisa de rico, e pessoas ricas sentem prazer em pagar caro. Por isso muitas vezes o vegetarianismo é associado a coisa de gente "fresca", porque muito artista, por exemplo, é vegetariano pensando em saúde. E todos nós sabemos que cuidar da saúde é caro.
Uma das coisas que mais me indagam aqui na favela é "nossa, mas não ia conseguir, tem que ter carne no prato pra ficar de pé". As pessoas não pensam primeiro naquele x-tudo delícia que não iriam mais comer, elas pensam em "preciso ficar forte pra trabalhar". A gente sabe que o paladar mexe muito com o ser humano, e que temos caprichos. Mas acredite, pra um morador de favela, sua maior preocupação é estar vivo.
Quebrando esse tabu da saúde, chegamos em outro obstáculo: o status.
Enquanto a Fátima Bernardes, por exemplo, que é uma artista influente ficar na TV fazendo propaganda de frango caipira e dizendo que na mesa dela tem, pobre também vai querer quando tiver grana.
É possível fazer um trabalho de formiguinha? É possível, MAS..se as pessoas da classe alta começarem a propagar a ideia do que é o "luxo", é um caminho bem mais fácil. Ainda que tenha esse conceito que só pessoas ricas que podem usufruir do vegetarianismo, a ostentação mais conhecida ainda é filé mignon e caviar, venhamos e convenhamos. 
Eu converso muito com pessoas daqui, e elas vão entendendo muitas coisas, pessoas pobres não são ignorantes, não confundam as coisas. Mas existe muitos fatores, que antes de tu apontar esse teu dedo branco você deveria refletir.
Existem os casos de hierarquia clássica, onde o homem sai pra trabalhar, e é a mulher que fica em casa, faxinando, cuidando dos filhos, cozinhando.. e se ela ousar fazer comida vegetariana pro jantar, quando o marido chegar do trabalho cansado pode causar até agressão.
Existem os casos de pessoas que sempre tiveram pouco durante uma longa jornada de suas vidas, e tudo que elas querem agora é encher a pança de carne, porque ela sabe o que é estar na pior.
E existem pessoas que recebem doação, e sendo assim não é possível controlar os alimentos que consomem. Se a pessoa recebe arroz e salsicha pra comer no dia, não dá pra comer só arroz.
Esses exemplos é mais direcionado aqueles veganos que acham que qualquer um pode ser vegetariano "basta querer". Não migo, não é assim que a banda toca.
Mas é claro que o contrário também me enjoa. Pessoas que não são pobres e consomem carne, puxando carteirinha de pobre de não sei da onde pra mandar essa. Como quem diz "eu sou pobre e sei o quanto é difícil ser vegana" NÃO MORE, CÊ NÃO É. VOCÊ SÓ TÁ COM PREGUIÇA DE SER VEGANA! Aí você pega o exemplo do seu Zé da favela, que não tem NADA  a ver com você, e diz que é coisa de rico ser vegano. APENAX PARE!



Escrevi esse texto outro dia na página do meu buffet, e vou compartilhar aqui também:
"O Veganismo...
Infelizmente, o veganismo ainda não é acessível a todos. 
É muito difícil você encontrar pessoas da periferia que sabem o que significa a palavra vegano.
Muito mal, vão entender quando você fala vegetariano. E elas vão rir da sua cara. Porque pra elas, ser vegetariano é coisa de granfino. Pra nós, da periferia, ser vegetariano, é coisa de gente chique.
E é mesmo. Não porque é caro, é por causa da ideia vendida por aí. Se a gente parar pra pensar, quanto mais pobre se é, mais vegano indiretamente você se torna. A alimentação diária de uma pessoa muito pobre fica praticamente à base de feijão e farinha de mandioca. Não sobra mais dinheiro pra comprar carne, nem mesmo a processada, a de segunda mão. Só que ainda assim, mesmo o termo vegetarianismo tendo um conceito tão simples "pessoas que só consomem alimentos de origem vegetal", ainda assim ele é vendido.
É vendido porque sempre achamos que só os artistas podem ser vegetarianos. É vendido porque existe uma infinidade de empresários que querem lucrar com o ramo e colocam pratos feitos a base de legumes baratos à preço exorbitantes, e ainda por cima 80% desses vendem coisas ruins, o que afasta ainda mais o interesse das pessoas. É vendido porque é propagada uma falsa ideia que pra ser vegetariano tem que ser magro, natureba e hipster.
O veganismo é vendido pra elite. 
Só que tem uma coisa... tem gente aqui inquieta tentando mudar esse quadro. Tem gente da favela que trabalha com comida vegana. E não é só o Banana Buffet, tem outros veganos tentando fazer a diferença.
Eu já sou amiga dos funcionários do sacolão, já sou amiga das caixas do supermercado, aos poucos, eles veem o que eu compro diariamente pra realizar o meu trabalho, aos poucos eu vejo diariamente que eu to fazendo a diferença.
Eu não vou vender minha comida caro, eu vou vender a um preço justo. Justo pra mim, justo pra você.
Eu vendo comida pro pessoal aqui da favela mais barato, tenho vizinhos clientes, tenho comerciantes clientes. Pessoas que provaram e quebraram o mito de que é ruim, que provaram e estão dispostas a repensar no consumo de carne, que fazem perguntas, que são curiosas! Pessoas que estão tendo a oportunidade de ter acesso ao veganismo.
Eu sou vegana, eu luto e eu resisto. O veganismo ainda é elistista sim, mas tá mudando, Ta mudando e muito! E não é só por mim, é por muita gente incrível que faz do trabalho um ativismo de dar orgulho!"


Tudo o que quero dizer com isso é: minha experiência como pobre, favelada e vegana, não pode ser usada como padrão, cada um é cada um.
De fato posso explicar pra qualquer um que caro não é, mas como eu expliquei ao decorrer desse post, existem muitos fatores que podem estar envolvidos que não é apenas o dinheiro.
Então três recados: 
1. se você é pobre, e tá com a consciência pesada, tá tentando ser vegetariano, tô aqui de braços abertos. Posso te ajudar no que precisar pra se virar, principalmente na cozinha que sei que é uma das coisas que mais pegam na adaptação.
2. se você é vegano, e acha que pode ficar cagando regra pra geral, manera aí. Seres humanos tem um privilégio sobre os animais não humanos, mas ainda assim, muitos desses humanos também são explorados. Então se tu não saber fazer recorte, não vai chegar a lugar nenhum.
3. se você é classe média e fica fazendo cosplay de pobre, apenas pare e toma vergonha na cara que não adianta ter cachorrinho adotado em casa e comer porco, explorar vacas e mostrar carteirinha de pobre falsa. Desce do salto.

Sopão Vegano

Hoje vou falar sobre um projeto mega legal e que precisa de ajuda sempre! Mensalmente no Rio de Janeiro aos terceiros sábados do mês, acontece o "sopão" (entre aspas porque nem sempre é sopa) vegano um trabalho voluntário para pessoas em situação de rua.

Através da doação de alimentos pré estabelecidos, vários voluntários se reúnem e se dividem em três turnos!
O primeiro é para cozinhar, o segundo para limpar e empacotar, e o terceiro para distribuir.
O cardápio fixo, básico é o risoto com leite de côco e um grão(ervilha, lentilha...) com legumes!
Essas são todas as refeições já embaladas e empacotadas

Os legumes são separados e higienizados pra preparar o prato

O prato que mais sai é risoto, que vai vários legumes e leite de côco <3

A galera do terceiro turno coloca tudo no carro e parte pra distribuição

Mala cheia!

Voluntários empenhados <3

Reaproveitamos todo o tipo de embalagem para distribuir as refeições
Precisamos de mais doações e principalmente mais voluntários para participarem!
Esse projeto vem persistindo e resistindo, para ajudar essas pessoas!
Para saber mais, entre em contato com a página do Sopão Vegano no facebook.